A história do WT – como ninguém nunca contou

A história do WT é muito maneira – e envolve mistério, sociedades secretas, glamour, e, claro, muitos golpes de artes marciais.

Antes de tudo, um adendo: parte da narrativa a seguir é possivelmente ficcional. Qual? Difícil saber!

O WT é uma coletânea de experiências pessoais. Explico: de repente, um artista marcial qualquer começou a lutar de um jeito curioso. Ele atacava a curta distância, com braços à frente do tronco e cotovelos baixos. O sujeito reparou que a coisa era eficiente e passou o segredo adiante. Com o correr dos anos, outros lutadores foram refinando e modificando esse projeto de sistema, dando forma ao que temos hoje. O processo de melhoramento é contínuo e nunca cessa, aliás. Estamos sempre evoluindo! Entretanto, pode ir tirando os seus dedos daí, pequeno gafanhoto! Só um Grand Master de verdade, habituado às estratégias e táticas do Wing Tsun, assim como à filosofia oriental, pode mudar alguma coisa.

Quando o assunto gera controvérsia, nada melhor do que posicionamento. Dependendo da fonte, o relato a seguir sofre mudanças. Existem diversas pessoas explicando esses acontecimentos de forma diferente.

OK, vamos nessa.

Em primeiro lugar: é muito difícil calcular a data exata dessas coisas. Pode ter sido durante o reino de Shun-chi, de Kang-hsi ou de Yung-Cheng – o que compreende uma dúvida de quase 92 anos! O que importa é: em algum ponto dessa história, o governo da época declarou que os monges do Templo Shao-Lin eram criminosos. O mosteiro, fundado no século 5 para propagar ensinamentos budistas, fica – sim, porque ele existe ainda hoje e tem até website – a oeste da Montanha Songshan, na província de Henan, uma das 22 que integram a China atual. A justificativa oficial: os monges estariam envolvidos em atividades que visavam derrubar a – naquele momento – recém-estabelecida Dinastia Ching.

O clima estava meio pesado, para ser sincero. Poucos anos antes, um oficial menor começou uma revolta camponesa que tomou a capital Beijing – na porrada. Desesperado, o imperador Sung Ching cometeu suicídio, pondo um fim à tricentenária Dinastia Ming. A seguir, houve uma corrida sem precedentes até o trono. Após uma batalha envolvendo cerca de 200 mil homens no extremo oeste da Grande Muralha, a Dinastia Ching assumiu o poder. E continuou lá até 1912, quando os nacionalistas declararam a República.

A dinastia, em um primeiro momento frágil e se consolidando, olhou desconfiada para os monges lutadores. Por que isso aconteceu? Há quem diga que o governo ficou preocupado com as técnicas assassinas secretas que eles detinham. Pode até ser. Some a isso um medo crescente do poder político que os monges acumulavam. Afinal, eles eram conhecidos, respeitados e tinham muitos seguidores fieis – que entendiam de briga. Outra teoria garante que os monges despertaram o olho gordo dos nobres ao receberem privilégios adicionais.

De todo modo, uma tropa liderada por oficiais de alta patente cercou e ateou fogo ao Templo. A lenda conta que apenas cinco monges sobreviveram. Os mais habilidosos. A elite: os Cinco Sábios.

Seu braço é meu!

Um desses monges alto nível era Pai Mei. Já ouviu esse nome antes? Exato! O próprio. É o mesmo do filme de Quentin Tarantino.

Segundo diversas fontes, ele é o cara que traiu o movimento, de dentro. Escrevo esse post sem um dos olhos, claro. É o preço a se pagar pela verdade. Por causa dessa história, o estilo de Kung-Fú supostamente criado por ele (tem o mesmo nome, inclusive) até hoje é visto com desconfiança e tem fama duvidosa na China.

Chi Shin é outro sobrevivente famoso desse massacre. Conhecido como “o mestre Zen”, ele tinha o maior número de discípulos e os organizou secretamente para lutarem contra o Governo Manchu depois do incêndio.

E, claro, havia também Ng Mui. Ng Mui era a única mulher do grupo e uma especialista no estilo de Kung-Fú da “Garça Branca”. Depois de escapar, viajou até a fronteira entre as províncias de Sichuan e Yunnan, onde fica a pouco populosa Montanha Tai Leung (que também existe de verdade). Queria permanecer escondida e este parecia ser o lugar perfeito. Lá ficava também o Templo da Garça Branca, onde ela se estabeleceu.

Acontece que Ng Mui estava assustada com essa história toda. O incêndio, a fuga, e agora o governo a rotulando como criminosa… Tudo isso a deixou muito preocupada e contribuiu para que uma medida dura fosse posta em prática: Ng Mui estava disposta a criar o sistema de combate definitivo.

Assim sendo, dedicou-se integralmente a desenvolver uma arte direta e muito simples, planejada para ser o mais eficiente possível. Agressiva, curta e rápida, com poucos movimentos: exatamente o contrário do que se via em outros estilos. Podemos perceber o quanto a mulher estava obcecada com funcionalidade: acabou até se esquecendo de dar um nome à arte.

Um dia, Ng Mui desceu até a vila local, onde ficava o mercado. Enquanto comprava tofu, ouviu do comerciante que sua filha de 15 anos estava sendo assediada por um brutamontes. De alguma forma, ouvir aquilo incendiou o senso de justiça da monja. O homem, velho e fraco demais para defendê-la, apresentou a menina à mestra. A lenda conta que Yim Wing Tsun – seu nome – era uma garota excepcionalmente bela.

Quem sabe?

Ng Mui poderia simplesmente ter batido no marginal, mas isso teria dado muita bandeira – e ela queria pouca publicidade sobre sua figura. Dessa forma, usou a filosofia do “ensinar a pescar” e aceitou como discípula a menina. Durante os 3 anos que se seguiram, ensinou os princípios e as técnicas que tinha inventado. Ao concluir o treinamento intensivo da garota, Ng Mui deixou a Montanha e partiu pela China, como turista. Yim Wing Tsun ficou e derrotou com facilidade seu agressor. Anos mais tarde, casou-se com um comerciante de sal (que era caro naquele lugar) e ensinou a ele o sistema. Foi esse cara, aliás, o responsável por batizar a coisa com um nome: “Wing Tsun Kuen”, em homenagem à esposa. It’s alive!

Pouco tempo depois, seu marido passou as técnicas adiante, para o médico herbário e osteopata Leung Lan Kwai, uma escolha que parecia acertada: ele era incrivelmente discreto. Na verdade, discreto até demais. Leung Lan Kwai escondeu seu conhecimento até da família. Muito misterioso, ele teria levado o segredo para o túmulo. Por um momento, o sistema Wing Tsun Kuen quase se perdeu, vítima de um de seus mandamentos mais básicos: “nunca tornar-se público”.

Entretanto, Leung Lan Kwai era um admirador das artes, e adorava ópera. Um dia, em um desses espetáculos, ele acabou ficando amigo de Wong Wah Bo, que tinha um papel importante na trupe dos Juncos Vermelhos. Os Juncos Vermelhos eram barcos de fundo chato, impulsionados por velas e pintados dessa cor. Eram todos decorados com cartazes brilhantes e serviam para levar grupos teatrais em tours pelo país (a China é o terceiro país mais extenso do mundo e tem um tamanho continental). Leung Lan Kwai simpatizou com o ator, revelou seu conhecimento secreto em conversas posteriores e aceitou-o como discípulo, ensinando tudo o que sabia.

Enquanto isso…

Lembra-se do mestre Chi Shin, um dos Cinco Sábios que sobreviveram ao cerco do Templo? Pois é. Onde vocês acham que ele estava escondido esse tempo todo? Exatamente. Na trupe dos Juncos Vermelhos!

Procurado em toda parte pelas autoridades do reino, Chi Shin refugiou-se no grupo. Parecia uma escolha lógica: os atores usavam maquiagem pesada na cara o tempo todo e isso ajudava muito a disfarçar. Fora isso, podia deslocar-se desembaraçadamente pelo país. Pretendia permanecer anônimo, mas era um cara popular e logo outros atores o reconheceram.  O que parecia ser o fim revelou-se um golpe de sorte: ao invés de denunciá-lo, a trupe decidiu por proteger o mestre – e até ajudá-lo em um ataque à Dinastia Ching. Para que isso pudesse ser feito de maneira eficiente, organizaram ao redor dele uma rede sigilosa de agentes – segundo a lenda, essa sociedade secreta deu origem às perigosas tríades, uma das máfias mais poderosas e violentas da história, presente em quase todo lugar do mundo onde exista uma Chinatown.

Chi Shin começou a treinar os membros desse grupo, para que eles estivessem prontos para combater o regime quando chegasse a hora. Um deles era o marinheiro Leung Yee Tei, que trabalhava remando nos Juncos Vermelhos (e também se vestia de mulher, garantem fontes!). Curiosamente, Chi Shin era um especialista na técnica do “Look-Dim-Boon-Kwun Fa”, em que uma pesada vara de madeira, com quase 3 metros de comprimento, é usada da forma mais perigosa e efetiva possível. Ele ensinou essas técnicas ao marinheiro, para que ele pudesse usar os remos como arma e, dessa forma, nunca ser pego desprevenido.

Wong Wah Bo e Leung Yee Tei trabalhavam nos Juncos Vermelhos e tornaram-se amigos. Ambos admiravam as técnicas que cada um detinha. Juntos, chegaram a um acordo: trocariam os movimentos entre si. Dessa forma, o Wing Tsun Kuen acabou absorvendo as técnicas do “Look-Dim-Boon-Kwun Fa”, tornando-se mais eficiente ainda!

A partir daqui a história começa a ficar mais crível e factual. Entre 1840 e 1868, a trupe chegou até o sul da China, na cidade de Fatshan, que fica no meio de diversas rotas movimentadas e é um centro comercial conhecido, principalmente por causa de sua porcelana. Leung Yee Tei tinha cerca de 60 anos nessa época e estava doente. Sendo assim, procurou um médico. Foi até a farmácia do Sr. Leung Jan pedir para ser examinado.

Leung Jan tinha por volta de 24 anos. Era o filho caçula. Educado, vinha de uma família abastada. Passava a maior parte do tempo administrando a farmácia do pai, Jan Sang. Gostava de ler e ambicionava aprender Kung-Fú – mas num futuro distante. Ele tinha um pé atrás com os estilos que conhecia: muitos floreios, movimentos espalhafatosos difíceis e, para ser inteiramente sincero, nada funcionais. Quando conheceu o sistema de Leung Yee Tei, ficou surpreso: era completamente alienígena e diferente de qualquer coisa que tivesse visto. Interessado, começou a tomar aulas. Há quem diga que as formas (Siu-Nim-Tao, Chum-Kiu e Dedos Perfurantes) surgiram nesse ponto. Outra coisa surgiu aí também: um mito.

Leung Jan era um lutador nato e em pouco tempo ganhou um título que se espalhou rapidamente pelas redondezas: “Rei do Kung-Fú”. Conta-se que nunca perdeu uma luta – mesmo tendo estado em mais de 300!

Leung Jan aceitou apenas alguns poucos discípulos. Entre eles o “trocador de dinheiro” Chan Wah Shun, que, em 1906, começou a dar aulas ao jovem Yip Man, um adolescente rico de Fatshan.

A história de Yip Man é mais “mainstream”. Quando os japoneses (que eram simpáticos à política expansionista de Hitler) bombardearam a base naval de Pearl Harbor, a Segunda Guerra Mundial explodiu no Pacífico. Mas pouco antes disso, eles tinham invadido a China. Com os quase 8 anos de conflito que se seguiram, Yip Man acabou perdendo sua fortuna. Nunca tinha trabalhado na vida e teve que dar aulas de Wing Tsun – que era secreto até ali – para sustentar a família.

Em 1945 os japoneses tomaram duas bombas atômicas na cabeça e a guerra acabou, mas Yip Man continuou dando aulas até a década de 60. Teve diversos alunos, sendo Bruce Lee o mais famoso.

Yip Man ensinando Chi-Sau a Bruce Lee.

O último discípulo treinado por Yip Man foi Leung Ting.

Leung Ting é o cara que atualizou e modernizou o Wing Tsun. Ele criou um programa sistemático de ensino, que facilitava o aprendizado da arte – até porque o jeito tradicional era difícil de engolir. Graças a ele o WT se tornou conhecido e pôde ser exportado para o resto do mundo, primeiramente a partir da Europa, com a ajuda desse cara de barba.

Keith Kernspecht

Keith Ronald Graf von Rothenburg Kernspecht tem um Q.I. do tamanho do bíceps. De descendência britânica, ele é um dos pioneiros no levantamento de peso na Europa. Tenho uma foto dele erguendo um cara com um braço só – aos 16 anos! Ele começou cedo a estudar artes marciais também: é altamente graduado em wrestling (tinha nome de guerra e tudo), Jiu-Jítsu, Judô, Kempô, Kung-Fú Shao-Lin, diversos estilos de Karatê, armas Kobudô, Tae-Kwon-Dô, Ai-Ki-Dô, artes marciais tailandesas, Escrima e Jeet-Kune-Dô.  Em 1975, ele começou a ter aulas particulares de Wing Tsun com Leung Ting e poucos anos depois fundou a Europäische WT Organisation (EWTO), cuja sede hoje é em um castelo gigantesco no sudoeste germânico, construído por um príncipe séculos atrás.

Kernspecht criou uma rede com milhares de academias só na Europa. Para expandir ainda mais sua EWTO, treinou um time de elite para levar o sistema WT a outros países. Um deles era o Si-Fu (= mestre) Hans-Jürgen Remmel, que chegou a ser uma das 10 pessoas mais graduadas na Europa.

Emin Boztepe

Hans Remmel tem um currículo impressionante e treinou, inclusive, com o famoso Emin Boztepe, que, apesar do que o nome sugere, é um lutador extremamente habilidoso. Ele começou na arte em 1982 (em agosto comemoramos seus 30 anos de WT!) e em pouco tempo tornou-se um praticante de alto nível. No ano de 1995, assumiu a responsabilidade de propagar a arte em terras tupiniquins. Para isso, contou com a ajuda de seu amigo, o mestre Andreas Geller. Em 2 de abril de 2006, ele desligou-se da EWTO e fundou a Sociedade Internacional de Artes Marciais (a Isma). E é através dela que tivemos contato com a arte.

Quando me matriculei no WT, ele era uma espécie de Clube da Luta, ninguém falava nele. O instrutor que representava a Isma no Distrito Federal era, à época, o Sihing Gilson David, que ministrava aulas em um espaço alugado na Quadra 512 da Asa Sul. Hoje a ficha dele na Isma tem um carimbo vermelho gigante escrito [R.E.D.]. Embora temperamental, o homem era um gênio. E eu falo isso até na cara dele, se for preciso. Tinha estudado Física, período no qual esteve a um acidente de laboratório de ganhar poderes e tornar-se uma ameaça à humanidade.

O WT me apresentou também a algumas das pessoas mais diferentes e interessantes que eu conheci na vida: ateus, comunistas, membros de seitas secretas, militares. Gente simpática, como meu atual instrutor, o Dai-Sihing Delson Carlos. E até pessoas esquisitas, como o Sihing Guilherme Aires, vegetariano extremo, do tipo que só come carne quando morde a língua – e sonha um dia viver de energia solar.

Em comum, temos todos o amor à arte. Tornei-me instrutor da Isma em maio de 2010 e posso garantir – tem sido uma das melhores experiências da minha vida.

G.M. Hans Remmel e Sifu Andreas Geller

Fontes: Wing Tsun Kuen (Leung Ting), Roots and Branches of WingTsun Kung Fu (Leung Ting), On Single Combat (Keith Kernspecht), seminários de Isma WT, artigos na Internet.

Racista? Pior: humano.

Faço parte de uma casta diminuta que cresceu lendo Monteiro Lobato. Estudei em uma escola muito especial e tive os mais esforçados professores de Literatura do mundo – o que deve ter ajudado. Eles eram todos voluntários e amavam dar aulas. Uma vez, no ensino fundamental, quando manifestei o interesse de ler um livro que faltava em nosso acervo, a diretora correu até uma outra biblioteca e o requisitou pessoalmente.

Meus professores gostavam especialmente de Monteiro Lobato – e conseguiram passar esse apreço adiante. Li quase todos os seus livros.

O fato é: fiquei muito espantado quando as primeiras denúncias de racismo foram alardeadas pela imprensa.

Vi esse caso de perto, dentro da sala de aula. Minha professora de Antropologia Cultural na faculdade atacou de todas as formas possíveis Monteiro Lobato, “o Capeta encarnado na Literatura brasileira”.

Engraçado: é muito mais fácil esquecer todo o resto, todas as causas nobres pelas quais ele lutou. A histeria chega a níveis ridículos. Um dos trechos racistas alegados contra a obra de Monteiro Lobato, por exemplo: a certa altura, ele afirma que o urubu é uma ave negra e fedorenta. Ponto. Só isso. A frase é essa. Pode conferir. Sem referência a mais nada, sem duplo sentido evidente, sem contexto malicioso. Segundo os especialistas, obviamente ele exagerou. Todos nós sabemos que o urubu é branco e tem cheiro de perfume francês.

As pessoas costumam esquecer que Monteiro Lobato lutou para que o primeiro poço de petróleo fosse perfurado no país. Foi contra as autoridades, estudou Geologia por conta própria, bateu o pé. Chegou a ser preso. É isso mesmo, cara pálida. Monteiro Lobato é diretamente responsável por nossa independência econômica hoje, pela bonança atual.

Agora, vale ressaltar uma coisa: todo mundo era racista nessa época. Monteiro Lobato era um estudioso assíduo e estava por dentro do que rolava na comunidade científica do período. E isso era o que os maiores nomes pensavam. Sua obra apenas refletiu o pensamento geral daquela sociedade. A ciência da época atestava a superioridade das raças e a eugenia. Essas idéias nasceram na Inglaterra, ganharam força nos Estados Unidos e atingiram seu auge com a política nazista. E houveram medidas práticas, muita gente acabou esterilizada à força. Em outras palavras: se a última palavra em ciência moderna é essa, quem é você para discordar?

“Mas racismo é errado, qualquer ser humano com dois neurônios sabe disso, bolas!” – concordo plenamente. Confesso que é até difícil para mim entender a perspectiva da época. Nascemos em mundo muito mais consciente e responsável quanto a esse assunto – apesar do que gostam de pintar por aí.

Racismo é errado e isso é nítido hoje. Gosto de citar o exemplo do meu amigo Guilherme Aires, que é vegetariano extremo, do tipo que só come carne quando morde a língua. Ele é militante ativo do direito dos animais e adversário ferrenho do “especismo”. Tudo o que ele alega é de uma sobriedade assustadora: os animais sofrem mesmo, passam por um tipo de sofrimento que nunca poderemos sequer conceber… E mesmo assim continuamos comendo carne, vestindo casacos de couro e usando produtos que foram testados das formas mais cruéis possíveis.

Daqui a 400 anos a sociedade pode evoluir e eu, que como carne, serei rotulado em uma categoria à parte, junto com os nazistas. Na verdade pior, nenhum nazista nunca comeu um judeu. Eu acho.

“É um assunto diferente, carne é uma coisa gostosa, o mundo é assim, e…” – sei. Os escravagistas patriotas também tinham argumentos fortes: “explorar escravos é horroroso, mas a economia depende disso. O que será do país sem eles?”.

A diferença só existe nas nossas cabeças hoje.

Outra: nada mais perigoso do que fingir que as coisas simplesmente nunca aconteceram. Os nazistas existiram, o Holocausto aconteceu, e temos que nos lembrar disso sempre. Caso contrário, a história corre o risco de se repetir. Esse é um péssimo hábito que ela tem, na verdade. Antes de Hitler, judeus eram exterminados aos montes na Rússia. Os armênios foram igualmente massacrados. Quem se lembra disso?

A obra de Monteiro Lobato tem valor, acima de tudo, porque é um documento histórico e atesta um mundo que existiu. Sobre a pessoa, precisamente, só posso garantir uma coisa: Monteiro Lobato tinha defeitos e virtudes. Monteiro Lobato era humano, como eu ou você. Muito humano.

Para saber mais: aqui

Joseph Goebbels, o homem que inventou Hitler

O nome do curso é Publicidade e Propaganda.

A Publicidade torna público; usa os mais diversos meios para promover de maneira eficiente um produto ou serviço, com o objetivo de vendê-lo. É o mesmo que “advertising” e seu cunho é estritamente comercial.

Já a Propaganda tem outra finalidade: divulgar idéias – de caráter político, cívico ou religioso – e converter, criando assim adeptos, seguidores.

Se a Propaganda tivesse um rosto, seria o de Joseph Goebbels.

Joseph Goebbels vinha de uma família católica e nasceu em uma época muito difícil. A Europa era uma banana de dinamite gigante: havia um choque muito forte de interesses imperialistas, com países poderosos disputando o controle de terras. Pressentindo um conflito, a rivalidade internacional começou a ser incentivada, principalmente através do nacionalismo. Isso até 1914, quando o assassinato de um príncipe herdeiro por terroristas iniciou a briga de bar que terminaria ganhando o nome de Primeira Grande Guerra. E aí a onça bebeu água.

Apesar de ter estudado Filosofia e Literatura, quando a contenda começou ele apresentou-se voluntariamente para o serviço militar. Era muito baixo – se você acha Hitler pequeno, Goebbels conseguia ser ainda oito centímetros menor que o ditador. Para piorar, por causa de uma doença nos ossos, uma de suas pernas era mais curta. 10 centímetros. Foi automaticamente rejeitado das forças armadas e nunca superou isso.

Nos anos seguintes, viveu uma crise existencial. A guerra acabou, após quatro anos, e a Europa era um monte de escombros. Estava totalmente arrasada, sua economia reduzida a pó. Um cenário de fome e desemprego resistia há anos. Desse descontentamento geral, surgiu a semente que originou o movimento nacional-socialista.

Com quase 28 anos, Goebbels teve contato com esse movimento, que estava em crescimento. Foi amor à primeira vista. O resto, well, nós conhecemos.

Goebbels era um dos poucos formados e pertencia ao braço intelectual do Partido. Tornou-se Ministro da Propaganda e braço direito do Führer. A princípio, ficou descontente com o posto, é verdade. Acreditava que este era um cargo menos importante. No fim, entretanto, soube aproveitar-se dele. Acumulou tanto poder que chegou a ocupar o posto de segundo no comando do Reich – estava acima de gente graúda, como Heinrich Himmler, chefe da polícia secreta, que, como todos sabem, era ninguém menos do que o Capeta. De fato, quando Hitler se suicidou, ele assumiu o governo. Mas por algumas horas apenas, antes de tomar cianureto também.

Era um propagandista nato, provavelmente o mais talentoso de todos os tempos. O que é uma pena, sabendo onde ele aplicou todos os seus esforços de convencer e instigar. Tinha um ódio mortal, obsessivo, pela comunidade judaica, a quem culpava pelos anos de adversidade da Europa.

Joseph Goebbels é diretamente responsável pela Noite dos Cristais, episódio de violência racista contra os judeus que, afirmam historiadores, desembocou no Holocausto. Sua retórica e sua capacidade de exprimir o pensamento nazista eram assustadoras. Conseguia organizar e comandar grandes movimentos facilmente. Sabe o famoso “Heil, Hitler!”, o cumprimento ao Führer? Ele inventou.

Goebbels esteve à frente de toda a propaganda do regime. Exerceu um controle severo sobre os jornais e usou o rádio para manipular de forma massiva o povo. O nazismo só teve a força que teve graças a ele.

Assim como Hitler, era um artista frustrado (tentara ser escritor; o Führer, pintor). Cultivou diversas namoradas. No casamento, teve seis filhos, que ele envenenou antes de se suicidar quando soube que a guerra estava perdida.

P.S.: post originalmente publicado em outro blog. Reupado e revisto, com material extra. Se você estuda Publicidade, conhecer as técnicas de Goebbels é obrigatório. Diversos presidentes famosos foram eleitos graças aos seus truques.

P.S. 2: para interessados, recomendo MUITO o documentário The Goebbels Experiment, de 2005 (só achei em inglês).

Por que ser publicitário?

Há pouco tempo, enfrentei um processo difícil: decidir meu futuro profissional, escolher um Curso Superior.  Foi uma tarefa árdua (sempre é, eu sei), mas analisar tudo friamente ajudou. Comecei estabelecendo alguns critérios básicos. Deu certo. Comparei as outras carreiras e concluí o seguinte:

Engenharia: Sol na cara, poeira e gente suada. Antes disso, muita matemática. OK, podemos parar por aqui.

Direito: quase me decidi por essa. O advogado usa terno, parece gente e a sociedade brasileira costuma atribuir glamour ao seu ofício. O orgulho de qualquer família – inclusive da minha. Mas me deparei com um problema essencial: o advogado nunca cria nada, e eu adoro produzir. Fora isso, é uma carreira atrelada ao seu país: as leis mudam de um lugar para o outro. Já a Publicidade é universal. Biologicamente falando, todos nós, seres humanos, ainda somos criaturas adaptadas para viver nas cavernas. Ou seja, a humanidade é a mesma, em qualquer parte da Terra. Posso vender luvas esperando que meu consumidor tenha cinco dedos aqui ou na Costa do Marfim.

Medicina: duas palavras: pessoas doentes.

Professor (qualquer área): lecionar no Brasil é uma atividade circense: envolve muito malabarismo. Paga mal e a estrutura é – quase sempre – desestimulante. Também exige treino e a paciência de um mestre Zen-budista. Enfim, estou pouco inclinado a ganhar pouco e ter uma vida de estresse.

Ed. Física: pratico esportes, acho tudo muito maneiro, mas… Sério, estudar quatro anos para ficar suando depois de formado? Sim, porque dar aula é um inferno (motivos acima), logo, o que sobra é o trabalho de personal trainer. Ele vai ter saúde e provavelmente viverá mais do que eu, – parabéns! – mas, fracamente, prefiro uma vida curta, mais etílica e intelectual.

Jornalismo: esse profissional nunca pode inventar nada (pelo menos na teoria é assim). Seria tentador, em um primeiro momento, publicar uma história fantástica qualquer. Quem sabe um escândalo sexual, envolvendo fotos de figuras proeminentes do governo e aquele peso de papel que sumiu da sala do Presidente em 76? Pode ser. Ao ser descoberto, me demitiriam. Ninguém me contrataria novamente. É possível.

Pesquisa científica (Física, Química, Tecnologia): Tenho problemas com números. Mas, fora isso, admiro muito o trabalho do cientista. É provavelmente a única carreira que realmente valha a pena. Nada – nem mesmo a Publicidade – pode rivalizar com a busca pelos segredos do Universo. Mas tenho problemas com números…

Publicitário trabalhando

Publicitário trabalhando.

Por que Publicidade, afinal? Em primeiro lugar, o publicitário é, naturalmente, um ser original e criativo. Um ser pensante. O mercado ordena que seja assim. Essa é a parte mais importante. E difícil. Como recompensa por todo esse esforço descomunal, ele vive em um universo glamoroso. Há sempre muito dinheiro circulando nesse ramo e o trabalho – mesmo daqui a mil anos – ainda será necessário. É a escolha perfeita.

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